sábado, 19 de fevereiro de 2011

Montanha de sofrimento


Há cerca de duas semanas, deu entrada nas urgências do hospital, mais um idoso entre tantos outros. Mais um, que após ter feito a inscrição na recepção, entrou para dentro daquelas portas de hospital, mas ali ficou abandonado, em pleno corredor hospitalar.



Só foi atendido cerca de 11h depois, quando a filha que o acompanhava se dirigiu ao segurança e lhe explicou o tempo que estava lá fora sem ter uma notícia sequer do pai.

Resultado: internamento durante cerca de uma semana e foi mandado para casa depois de o médio ter preparado a família para o pior.

Já em "casa", mal come, não anda nem fala. Está ali, sentado no sofá rodeado de almofadas para o manter minimamente direito, cheio de bronquite e se conseguir libertar o que lá tem dentro. Está ali entupido, de pijama (como nunca se apresentava nem que fosse para tomar o pequeno-almoço).

Até observar esta situação, não acreditei. Apesar da pouca proximidade que tenho com ele, sempre o conhecera com grande dificuldade em respirar e com muito bronquite. Quando o meu pai me disse que ele estava mal, sinceramente não liguei. Depois disso, o seu estado tinha melhorado, sorria, falava muito, até pelos netos perguntara.


Mas tudo mudou quando o fui ver. Sentado no sofá, quente - como nunca conseguia estar, costumava brincar a dizer "o meu sangue" é ruim -, olhar cabisbaixo que não levantava sequer quando as pessoas se aproximavam para o cumprimentar. Falar, muito pouco numa voz extremamente rouca, comer duas ou três colheres de sopa eram suficientes para tomar a medicação, caso insistissem deitava tudo fora. Andar, só com uma perna a arrojar.



Foi uma das piores experiências que tenho para contar. Os familiares que estavam presentes só conseguiam falar do pior. O seu estado tinha mudado bastante desde o dia anterior.


Quando julgava que ele estava a olhar para mim, fazia a carantonha que o fazia sorrir, mas nada. Nem quando lhe virei a boina, como de costume, olhou para mim. Apesar de tudo isto, quando questionado acerca da minha identidade respondeu "Sandra". Como lhe era habitual confundir com o da minha prima.

Todos os dias são dias diferentes: ora está bem ora está pior.

Ontem, estava bem: sorria e até andou sem arrastar nenhuma das pernas.
Hoje, está pior.

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